Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas

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Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas

Mensagem  Admin em Qua Maio 26, 2010 2:19 pm

PARA UMA DEFINIÇÃO DE CRÍTICA TEXTUAL: O CASO DA EDIÇÃO CRÍTICOGENÉTICA
DE O EGIPTO E OUTROS RELATOS DE EÇA DE QUEIRÓS1

Ceila Ferreira Martins
LABEC – GCL – UFF2

Como descrever, como dizer aquelas noites feéricas,
em que tudoperde a sua forma real, em que as luzes e
as sombras tornam bela a superfície miserável das
coisas?
O Egipto. Notas de Viagem (3.ª. ed, 1926)

A epígrafe acima, retirada das páginas da terceira edição de O Egipto, pode suscitar
várias indagações ao editor crítico de textos, como por exemplo: de que maneira deve ser
editado um texto que perdeu boa parte de sua redação original, que é conhecido pelo
público leitor com passagens e soluções que não se encontram nas páginas do manuscrito
que lhe serviu de base? Como e por que fazer falar textos que permaneceram durante anos
e anos emudecidos num baú de ferro – talvez legados ao esquecimento ou destinados a
serem notas ou estudos para a produção de outros textos - por seu próprio autor, Eça de
Queirós? Talvez, se O Egipto não tivesse sido publicado, em 1926, e da maneira como foi
publicado, com sérias alterações e modificações, não haveria necessidade de o
publicarmos, hoje, em uma edição crítico-genética e em uma edição crítico-genética que irá
apresentar, ao leitor, o cotejo entre o manuscrito autógrafo, os textos em jornal e em
almanaque e a já referida edição vulgata de 1926. Podemos dizer algo semelhante sobre a
Palestina e a Alta Síria, que foram publicadas com Sir Galahad e Os Santos, numa edição
também problemática, saída em 1966, que recebeu o nome de Folhas Soltas.

Como nós sabemos, a Crítica Textual tem entre as suas funções a de preservar o
patrimônio de uma literatura - de uma língua - e está intimamente ligada ao que chamamos
de Filologia.

Uma definição muito interessante para Filologia é a que encontramos no livro do
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais, César Nardelli Cambraia, que diz o
seguinte: “[...] emprega-se aqui o termo filologia para designar o estudo global de um texto,
ou seja, a exploração exaustiva e conjunta dos mais variados aspectos de um texto:
lingüístico, literário, crítico-textual, sócio-histórico, etc.”3. Mas a expressão “estudo global do
texto” nos faz pensar, pois por estudo global do texto – ou por um determinado tipo de
estudo global do texto – também podemos entender o processo de apreensão, de
interpretação e de entendimento de um texto a partir de (e através de) uma visão que é por
nós hoje chamada de interdisciplinar. Ou seja, estudo global do texto pode ser entendido
como um estudo realizado a partir de (e através de) investigações lingüísticas, históricas,
literárias, filosóficas, etc, etc, etc, muitas vezes, com vistas ao apuramento do texto, ao
estudo da sua transmissão e da sua gênese, buscando também minimizar os problemas de
comunicação que separam o leitor – que vive no século XXI, por exemplo – de um texto
escrito por um determinado escritor ou por uma determinada escritora em um passado
longínquo ou recente.

Por apuramento do texto, podemos entender: livrar o texto das intromissões voluntárias
e/ou involuntárias de terceiros e apresentá-lo ao leitor o mais aproximadamente possível à
última redação materializada pelo autor ou à realizada sob as vistas e conforme a aprovação
desse mesmo autor. Porém, para compreendermos com maior clareza o que vem a ser
apuramento do texto, temos de nos aproximar de, pelo menos, duas noções fundamentais
para a Crítica Textual: a de transmissão textual e a de autor.

A transmissão textual dar-se-á de várias maneiras, todas elas relacionadas com a época
de sua ocorrência e com a natureza do texto transmitido. No caso de textos modernos e de
textos de várias épocas editados em nossos dias, essa transmissão é feita hoje,
preferencialmente, através do uso de computadores. Contudo, esse tipo de transmissão não
está isento de apresentar problemas (por exemplo: problemas técnicos, problemas advindos
do desconhecimento das práticas da Crítica Textual por parte dos editores, etc). Pode
acontecer que o texto publicado e apresentado aos leitores, inclusive via Internet, não esteja
conforme a última intenção materializada pelo autor e considerada por ele como texto final,
pronta para passar pelo processo de edição. Pode ocorrer também que o texto que passou
pelo processo de edição não seja um texto acabado, nem que tenha sido destinado à
publicação por seu autor. É o que pode ter acontecido, no início do século XX, mas não
através do uso de computadores, é claro, com os textos – ou com a maior parte dos textos -
que formam O Egipto e outros relatos, conjunto de narrativas de viagens que estamos
preparando para publicação em forma de edição crítico-genética, dentro do Projeto de
Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenado pelo Professor Doutor Carlos
Reis, Reitor da Universidade Aberta, Catedrático na Universidade de Coimbra e um dos
maiores especialistas na obra do autor de Os Maias.

O texto de O Egipto, divulgado pela edição vulgata de 1926 – preparada pelo filho do
autor, José Maria d’ Eça de Queirós – apresenta inúmeros problemas de transmissão
textual, se entendemos como ideal de transmissão textual – na maior parte das vezes – a
publicação de um texto conforme a última intenção materializada pelo autor, o que podemos
chamar de texto final, atendendo também a critérios ligados a uma estratégia editorial
traçada – no caso de póstumos, na ausência do autor e da sua autoridade – por um editor
científico4. Tal estratégia, no caso da primeira edição de O Egipto, não foi traçada por um
editor científico e a natureza e mesmo as características dos relatos contidos naqueles
manuscritos não foram levadas ao público tais quais se mostravam nos autógrafos do
escritor. O mesmo podemos dizer da Palestina e da Alta Síria, publicadas nas Folhas Soltas
de 1966 e preparadas para edição por Dona Maria d’Eça de Queirós, filha mais velha do
escritor. Como sabemos, a maior parte de O Egipto e a Palestina e a Alta Síria foram
levadas ao conhecimento do público leitor após a morte de Eça de Queirós. São, portanto,
textos póstumos e foram publicados com um número bastante significativo de intervenções
e de modificações por parte dos filhos do autor. Não foram editados conforme o manuscrito
que hoje se encontra no Espólio de Eça de Queirós, parte do acervo da Biblioteca Nacional
de Lisboa, nem foi devidamente respeitado o caráter de texto inacabado que lhes é próprio.

Ainda sobre transmissão textual, lembramos que Blecua divide, no Manual de Crítica
Textual, a transmissão de textos modernos em: transmissão impressa e transmissão
manuscrita. O mesmo autor abre o Livro Terceiro da referida publicação com o seguinte
título: “A transmissão dos textos nos séculos XVIII, XIX e XX”, em que escreve um capítulo
especial para os textos transmitidos no século XVIII e outro capítulo especial para os
transmitidos nos séculos XIX e XX. Portanto, ele não separa por capítulos os textos
transmitidos nos séculos XIX e XX5.

Para a transmissão de textos literários no século XIX, Blecua chama a atenção para os
seguintes pontos: “El espectacular avance de la prensa periódica, los nuevos adelantos
técnicos en la impresión, la aparición del escritor profesional y la ampliación y, a la vez,
diversificación del público lector, son, en conjunto, los factores nuevos que incidirán de
forma terminante en la creación y en la transmisión de la obra literaria”6.

Lembramos que Blecua fala ainda acerca dos problemas de transmissão textual
decorrentes da publicação em livro de um texto anteriormente publicado pela imprensa
periódica e também pelas várias reedições de um texto com modificações realizadas pelo
próprio autor. Um exemplo desses dois casos apontados por Blecua é o das sucessivas
versões (3 ao todo) de O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós (1875, 1876 e 1880).
Também pode ser citado como exemplo de texto modificado pelo autor – e por terceiros – a
parte de O Egipto, intitulada “A mulher no Oriente”, presente no manuscrito autógrafo e
publicada em vida do autor, no ano de 1871, com alterações consideráveis em relação à
redação manuscrita e posteriormente editada, em 1926, tendo o autor já falecido, com
modificações expressivas em relação ao manuscrito e à edição em vida de Eça de Queirós.
Bem, sobre as três versões de O Crime do Padre Amaro, todas elas trabalhadas por Eça
de Queirós e publicadas em vida do escritor, veja-se a Introdução da Edição Crítica do
referido romance, preparada pela Equipa Eça de Queirós, coordenada por Carlos Reis7.
Sobre O Egipto falaremos mais adiante.

Passemos agora ao segundo item dos conceitos fundamentais para o entendimento do
que vem a ser apuramento do texto em Crítica Textual: o conceito de autor.
O conceito de autor é bastante importante e mesmo fundamental para a Crítica Textual.
Desse conceito, o de autor, dependem, pelo menos, o de texto-base e o de intenção final
materializada pelo autor.

O autor, para a Crítica Textual, é o produtor, o criador do texto, desde a sua primeira
escritura (e os seus primeiros apontamentos) até o texto final. Contudo, em certos casos,
como em certas épocas, não podemos identificar o autor ou um autor de um determinado
texto, muito menos conseguimos “chegar” ao texto final, ou mesmo às etapas de criação ou
de escritura de um texto. Isto acontece muitas vezes com textos da Antigüidade. Em tais
situações, procuramos estabelecer o texto que mais se aproxima da intenção final
materializada pelo “autor”, através do exame de cópias de cópias de cópias de cópias nãoautógrafas.
Outras vezes, tentamos fixar “por escrito” – e segundo os pressupostos da
Crítica Textual – textos que são originários de uma tradição oral, por vezes, produtos de
uma criação coletiva. Como estabelecer, nesses casos, a última intenção materializada pelo
autor? E de que tipo de autor estamos falando? Como podemos mesmo compreender o que
era entendido por autor – ou a falta de um conceito do que hoje entendemos por autor – em
um determinado período de tempo? Ou seja, o conceito de autor e mesmo o de obra são
conceitos que não se encontram ao largo da História. Eles devem ser entendidos em um
contexto histórico. Em suma: têm de ser vistos e compreendidos dentro da História. E é
interessante lembrarmos as palavras de Roger Chartier, a respeito do gesto criador e dos
“constrangimentos” que o cercam:

[...] todo gesto criador inscreve em suas formas e seus temas uma relação com as
estruturas fundamentais que em um determinado momento e lugar moldam a distribuição do
poder, a organização da sociedade ou a economia da personalidade. Pensado (e pensandose)
como um demiurgo, o artista, o filósofo ou o sábio inventa contudo em meio ao
constrangimento. Constrangimento das regras (da patronagem, do mecenato, do mercado
etc.) que definem sua condição. Constrangimento mais fundamental ainda das
determinações ignoradas que habitam cada obra e fazem que ela seja concebível,
transmissível, compreensível. O que toda história cultural deve pensar é portanto,
indissociavelmente, a diferença pela qual todas as sociedades, por meio de figuras
variáveis, separaram do quotidiano um domínio particular da atividade humana, e as
dependências que inscreve, de múltiplas maneiras, a invenção estética e intelectual em
suas condições de possibilidade 8.

Um estudo fundamental que nos aproxima da “invenção estética e intelectual em suas
condições de possibilidade” é o da gênese dos textos – literários e não-literários – através
do exame do espólio de um autor.

Para o estudo da gênese e da transmissão de textos modernos, podemos considerar
como balizas temporais o século XIX ou a segunda metade do referido século. Tal baliza
temporal é a utilizada nas definições de Crítica Textual Antiga e de Crítica Textual Moderna
apresentadas pelo Professor Ivo Castro, Catedrático na Universidade de Lisboa e
Coordenador da Equipa Pessoa no instigante artigo intitulado “Enquanto os escritores
escreverem ... (Situação da crítica textual moderna)”9.

Para Ivo Castro, a Crítica Textual Antiga: “[...] continua a ocupar-se, como faz há
bastante tempo, de textos removidos de sua forma autoral por numerosas operações de
cópia, cujas sucessivas actualizações procura identificar e neutralizar10.

Já a Crítica Textual Moderna, ainda conforme Ivo Castro, seria o “[...] estudo do original
do autor e do seu dossier de ante-textos, o que a insere no campo cronológico das
literaturas modernas, já que são os escritores dos séculos XIX e XX (e muito raros os de
épocas anteriores) que nos legam tais tipos de documentos [...]”11.

Em resumo, podemos entender por Crítica Textual de Textos Modernos o estudo e a
descrição da transmissão e do processo de criação – através do exame do espólio do autor
– de textos, muitas vezes (e na maior parte das vezes) com vistas à sua publicação. Tais
textos também podem ser publicados com comentários exegéticos e interpretativos sem
desprezarmos as descontinuidades entre presente e passado; sem ignorarmos que
conhecemos o passado através de um olhar que não se encontra apenas no passado e sim
através de informações (de textos) do passado, que chegaram até os dias de hoje e que são
decodificadas por um olhar – ou por uma série de olhares – que se encontra(m) no tempo
presente, com as interrogações, os desafios, as sínteses, as certezas, as idiossincrasias
próprias ao tempo presente. E pensamos e trabalhamos o objeto do nosso estudo através
das tecnologias e das teorias, as quais julgamos mais apropriadas dentre as que temos
acesso na atualidade.

A Crítica Textual, a despeito de definições que restringem o seu campo de estudo (vide a
definição de Crítica Textual como a de estabelecimento de textos), assim como a Filologia,
pode ser entendida como o estudo global do texto e que tem também o interesse de fazer
com que o texto seja inteligível ao leitor de hoje. Ou seja, tem entre os seus objetivos o de
trazer, ao leitor de hoje, o texto mais próximo possível daquele que o autor escreveu (em
suas múltiplas redações) – e também o de desvendar – para o leitor de hoje -– o sentido
literal – ou o mais próximo possível desse sentido – que palavras, expressões, citações,
usos gramaticais e estilísticos tinham no texto base, na época de sua publicação ou através
do processo de transmissão textual ao longo do tempo.

Uma definição bastante feliz para Filologia – e que, em nosso entender, pode ser
utilizada para definir também Crítica Textual – é a que encontramos em artigo já citado
neste trabalho, o “Enquanto os escritores escreverem ... (Situação da crítica textual [justify]moderna)”, da lavra do Professor Ivo Castro. Vejamos. Segundo o Coordenador da Equipa
Pessoa:

[...] a filologia, definida como ciência que estuda a gênese e a escrita dos textos, a sua
difusão e a transformação dos textos no decurso da sua transmissão, as características
materiais e o modo de conservação dos suportes textuais, o modo de editar os textos com
respeito máximo pela intenção manifestada do autor, pode continuar o seu percurso,
evoluindo e aperfeiçoando-se por meio de um constante debate interno quanto aos seus
princípios teóricos e aos seus métodos [...]12.


Como podemos perceber através da definição proposta pelo eminente Professor Ivo
Castro, a Filologia como Crítica Textual – ou a Crítica Textual como Filologia – abarca um
leque bastante expressivo de estudos relacionados à gênese, à preservação, à transmissão
e à divulgação de textos. No caso de textos literários, é parte nos Estudos Literários. Mas
não está restrita aos Estudos Literários. É parte também dos Estudos Culturais e de uma
Teoria e de uma Prática de Edição e de Interpretação de Textos Literários e/ou Não-
Literários. Há, inclusive, novos recordes interdisciplinares, como diz Roger Chartier, em
artigo já citado neste trabalho, que correlacionam Crítica Textual, História do Livro e
Sociologia Cultural13.

Voltando à edição que estamos preparando dentro da Equipa Eça de Queirós, o trabalho
que temos em processo de execução é o de realização de uma edição crítico-genética dos
textos que formam o Egipto, a Palestina e a Alta Síria. Tais textos são classificados,
conforme o critério de gênero, que preside a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós,
como narrativas de viagens e serão publicados com o título não-autoral, mas fiel ao critério
de gênero, de O Egipto e outros relatos.

Vale lembrarmos que a realização de uma edição crítica ou de uma edição críticogenética
é uma feliz oportunidade para pensarmos (e repensarmos) os contornos, os limites
e as práticas da Crítica Textual.

A respeito da edição de O Egipto e outros relatos, a maior parte do seu texto crítico tem
como base o manuscrito autógrafo pertencente ao Espólio Eça de Queirós da Biblioteca
Nacional de Lisboa. Contudo, a parte de O Egipto que foi publicada no Diário de Notícias e
no Almanaque das Senhoras terá como base os textos editados naquelas publicações
realizadas em vida do autor. Portanto, grande parte de O Egipto e outros relatos pode ser
considerada póstuma, mas há uma pequena parte que foi publicada, inclusive com
alterações em relação ao manuscrito, em vida de Eça de Queirós.

Quanto ao aparato crítico, ele está sendo construído a partir do cotejo do manuscrito
autógrafo com a edição vulgata de 1926, para o caso das partes de O Egipto que não foram
publicadas em vida de Eça de Queirós. Já para o caso das partes que foram publicadas em
vida do autor, serão cotejados também os textos publicados em jornal e em almanaque com
o manuscrito autógrafo e com a edição vulgata de 1926. Portanto, neste último caso, o leitor
terá acesso às variantes do autor, decorrentes do trabalho de construção da narrativa e do
labor estilístico realizados pelo próprio autor, assim como terá acesso às variantes que
foram lá introduzidas pelo editor literário de O Egipto, no caso, José Maria d’Eça de Queirós,
filho do escritor.

Para a Palestina e a Alta Síria, o aparato crítico será construído a partir do cotejo do
manuscrito autógrafo com a edição de 1966, intitulada Folhas Soltas, a qual podemos
considerar como vulgata dos relatos de viagem, fora o Egipto, publicado em primeira edição,
em 1926. Então, no caso da Palestina e da Alta Síria, o leitor terá acesso às variantes
realizadas pela editora literária de Folhas Soltas, Dona Maria d’Eça de Queirós, filha mais
velha do autor.
O aparato crítico de O Egipto e outros relatos será formado também de notas do editor
crítico. Tais notas serão introduzidas e finalizadas por colchetes e terão o intuito de explicar
mais detidamente alguns casos em que realizamos a etapa da emendatio. Por exemplo, nos
casos em que, no texto base, observamos o uso de vírgula entre sujeito e predicado. Tais
casos serão devidamente anotados e informados ao leitor, assim como serão comunicados
e explicados ao leitor todos os procedimentos do crítico textual em relação à preparação da
edição.

Ainda no aparato crítico, teremos algumas notas de caráter exegético, dadas as citações
de lugares, de personalidades e de acontecimentos históricos não tão familiares ao leitor de
hoje como certamente pareciam ao leitor do final da década de 20 do século passado.
Quanto ao cotejo do manuscrito autógrafo com as vulgatas de 1926 e de 1966, ele está
sendo realizado, pois acreditamos que uma edição crítica (ou crítico-genética) de O Egipto e
outros relatos deve facultar ao leitor informações relevantes advindas da história da
transmissão dos textos-objeto de publicação, mesmo que tais informações tenham sido
produzidas a partir de intervenções de terceiros, pelo seguinte motivo: não podemos nos
esquecer de que a vulgata, ou as vulgatas de 1926 e 1966, necessariamente, fazem parte
da história da transmissão do que hoje chamamos de O Egipto e outros relatos e da
produção de uma fortuna crítica do que, ainda na atualidade, o grande público e muitos
[justify]estudiosos da obra de Eça de Queirós conhecem pelos títulos de O Egipto: Notas de
Viagem, Palestina e Alta Síria.

Ditas estas palavras, vale lembrarmos que após o texto crítico e o aparato crítico – que
será publicado em rodapé – estamos preparando um capítulo fundamental numa edição
crítico-genética: o aparato genético.

No aparato genético, ao lado de informações relativas à tipologia do manuscrito, como
informações sobre suportes e materiais de escrita, por exemplo, mostraremos, utilizando
uma simbologia própria a tais aparatos, as rasuras, as substituições, enfim, as correções e
emendas feitas, no manuscrito, pelo próprio Eça de Queirós. E é aí, no aparato genético,
que ficará evidente ao leitor o que muitos críticos literários afirmam em relação ao Egipto:
que ele seria uma espécie de porta de entrada do autor no processo de sua “conversão” ao
Realismo, o que podemos observar através de algumas das correções e emendas feitas por
Eça de Queirós no manuscrito de O Egipto e da Palestina.

Na página inicial do manuscrito autógrafo da Palestina, por exemplo, o autor substitui um
vago substantivo ‘barcos’ por um mais expressivo e exato ‘navios’. Na página três do
mesmo manuscrito, quando escreve sobre os homens que o recebem na sua chegada a
Jafa, substitui um vago ‘homens’ por um mais preciso ‘árabes’. Tal atitude em relação à
precisão dos termos utilizados, na descrição das paisagens, dos costumes e das pessoas,
que encontra ao longo da viagem, é corrente no autógrafo.

Ainda no manuscrito da Palestina e de O Egipto encontramos passagens diferentes
daquelas a que o público de Eça de Queirós está habituado. Por tal motivo, pretendemos
editar o manuscrito autógrafo em fac-simile, ao lado do texto crítico, da seguinte maneira: o
fac-simile nas páginas pares e o texto crítico nas ímpares da edição crítico-genética.

Na introdução de O Egipto e outros relatos, ao lado de informações sobre a história da
obra, dos textos que a compõem, do contexto da gênese, da produção e da transmissão
textuais, escreveremos sobre a aproximação de Eça ao Realismo através de exemplos que
retiraremos das correções empreendidas pelo próprio autor no manuscrito autógrafo de O
Egipto, da Palestina e da Alta Síria. E é da nossa vontade que a edição crítico-genética de
O Egipto e outros relatos, que temos em processo de preparação, contribua para a
divulgação tanto dos processos de criação queirosianos como do texto final das narrativas
de viagem possível de ser restaurado por nosso trabalho14. E temos a certeza de que quem
folheia, lê, examina uma edição crítica ou uma edição crítico-genética – preparada nos
moldes do que entendemos por Crítica Textual Moderna ou Crítica Textual de Textos
Modernos – percebe, sem problemas, que a Crítica Textual é muito mais do que o
estabelecimento de um texto.



Bibliografia:

Livros e Artigos:

BLECUA, Alberto, Manual de Crítica Textual, Madrid: Castalia, 1983

CAMBRAIA, César Nardelli, Introdução à Crítica Textual, São Paulo: Martins Fontes, 2005

CASTRO, Ivo, “Enquanto os escritores escreverem... (Situação da crítica textual moderna)”,

Conferência plenária, IX Congresso da ALFAL, Campinas, 1990 (texto mimeografado)

MONTEIRO, Ofélia de Paiva, REIS, Carlos, CASTRO, Ivo, “Sobre edições críticas: uma entrevista”,
Revista Convergência Lusíada, nº. 21, 2005, pp. 345-351

PICCHIO, Luciana Stegagno, “O método filológico: comportamentos críticos e atitude filológica
na interpretação de textos literários”, A lição do texto, Lisboa: Edições 90, 1979

QUEIROZ, Eça de, O Egypto. Notas de Viagem, 3ª. ed., Porto, Livraria Chardron, de Lello &
Irmão, 1926

QUEIROZ, Eça de, Folhas Soltas, Porto: Lello & Irmão, 1966
REIS, Carlos, MILHEIRO, Maria do Rosário, A Construção da Narrativa Queirosiana. O Espólio
de Eça de Queirós, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989

REIS, Carlos, CUNHA, Maria do Rosário, eds., O Crime do Padre Amaro, Edição Crítica das

Obras de Eça de Queirós, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000
RONCAGLIA, Aurelio, Principi e applicazioni di critica testuale, Roma: Bulzoni, 1975

Manuscritos (em CD-Rom)15:
O Egipto: E1/305 (Caderno 1 e 2) e E1/305 (Blocos 1, 2 e 3)
Palestina: E1/288 e E1/288 a Alta Síria: E1/290

[justify]Internet:

CHARTIER, Roger, A História Hoje: dúvidas, desafios, propostas:
http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/140.pdf. (versão em html)


1 Uma primeira versão da primeira parte deste texto foi apresentada durante a primeira aula do II
Módulo do Curso de Mestrado “Para uma edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes e
d’O Egipto e outros relatos”. O primeiro módulo do referido curso foi ministrado pelo Professor Doutor
Carlos Reis.

2 Labec: Laboratório de Ecdótica da UFF. GCL: Departamento de Ciências da Linguagem do Instituto
de Letras da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, Brasil.

3 Cambraia, Introdução à Crítica Textual, p. 18.

4 Cf. Reis, Milheiro, A Construção, p. 24.

5 Blecua, Manual, pp. 217-232.

6 Blecua, Manual, pp. 227.

7 Reis, Cunha, O Crime do Padre Amaro.

8 Chartier, A História, p. 8.

9 Castro, “Enquanto os escritores”, p. 3.

10 Castro, “Enquanto os escritores”, p. 3.

11 Castro, “Enquanto os escritores”, p. 3.

12 Castro, “Enquanto os escritores”, pp. 46-47.

13 Chartier, A História, p. 8.

14 cf. Monteiro, Reis, Castro, Sobre edições críticas, p. 346.

15 Tais cópias digitalizadas serão cuidadosamente confrontadas, para o fechamento da edição críticogenética,
com os originais manuscritos autógrafos do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa, in
loco, ou seja, na própria Biblioteca Nacional, em Lisboa, Portugal, pela editora científica de O Egipto
e outros relatos.
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Re: Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas

Mensagem  Gustavo Listo em Qui Jun 03, 2010 5:11 pm

Em minha opinião, pode-se dizer que o texto da professora Ceila Ferreira Martins se preocupa principalmente em desfazer uma concepção simplista que associa o trabalho dos críticos textuais apenas à tarefa de estabelecimento dos textos. Antes de mais, devo ressaltar que a preocupação da autora não implica negar ao crítico textual o cuidadoso labor de averiguação dos manuscritos autógrafos e apógrafos de uma determinada obra. Afinal, não se pode deixar de reconhecer que o estabelecimento dos textos é uma das partes fundamentais de um empreendimento cujo objetivo é obter uma publicação mais fidedigna possível a vontade do autor. No entanto, a professora procura demonstrar que a Crítica Textual é uma ciência mais fecunda do que normalmente se pensa, não se esgotando, dessa forma, no cotejo de edições.

Talvez se possa dizer que Ceila Martins, com o objetivo de convencer o leitor da amplitude inerente à atividade filológica – entendendo aqui Filologia como Crítica Textual –, lança mão de dois artifícios, a saber: a conceituação e a exemplificação. Sendo assim, por um lado, reconhecemos no texto uma apresentação de conceitos que dizem respeito ao âmbito filológico e, por outro, nos deparamos com comentários acerca dos problemas da preparação da edição crítico-genética d’O Egipto e outros relatos – obra de Eça de Queirós a ser publicada sob sua responsabilidade. A junção desses dois pontos contribui para que o leitor perceba a abrangência da Crítica Textual, pois, ao mesmo tempo em que ele tem contato com diversas noções filológicas, possui a possibilidade de vê-las aplicadas no processo de elaboração da edição crítica queirosiana.

Logo no início da leitura, encontramos a primeira dessas concepções filológicas: a de “estudo global do texto”. Complementando a definição de Filologia cunhada por César Nardelli Cambraia, a autora defende que esse tipo de estudo global, realizado por um filólogo, é atravessado pela interdisciplinaridade. De certa maneira, se pensarmos que a ocupação desses estudiosos visa não somente o estabelecimento de um texto, mas também o exame de sua transmissão no decorrer da história e de sua gênese, então nós poderemos concluir que esse corpo a corpo com a escrita só poderá ser feito por meio das mais diversas abordagens, entre elas as linguísticas, as literárias, as históricas etc.

Nesse sentido, gostaria de ressaltar que a Crítica Textual, no que tange à interdisciplinaridade, pode se aproximar ou se afastar de outras ciências da linguagem. Como se sabe, a Linguística e a Crítica literária, entre outros estudos, muitas vezes seguem pelos profícuos caminhos da interdisciplinaridade. Todavia, podemos lembrar que, em uma determinada época, quando o estruturalismo foi tomado como uma espécie de paradigma, a Linguística, por conta de um desejo de autonomia, se voltou para si e desprezou outras áreas do conhecimento.

Não quero aqui defender a ideia de que esse tipo de análise estruturalista é totalmente infundado ou nocivo, até porque, em minha opinião, esse momento legou uma herança positiva aos estudos da linguagem. Contudo, houve também uma herança negativa. A primazia do entendimento de língua como um sistema a-histórico e fechado causou o desprestígio dos estudos interdisciplinares e diacrônicos, estudos esses voltados para os sentidos históricos da linguagem. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a Crítica Textual ainda permanece à margem nas universidades.

Voltando ao texto da professora Ceila, comento agora uma das questões levantadas pela Crítica Textual que considero bastante relevante. Refiro-me ao que a autora chama de “transmissão textual”. Geralmente, quando deitamos um livro sobre o colo para desfrutar de sua leitura, não paramos para pensar que ele tem uma história de transmissão. Não pensamos que, em muitos casos, esse texto foi divulgado em outro suporte, como o pergaminho, por exemplo, nem que ele pode ter passado pela mão de copistas em épocas passadas. Em suma: não nos damos conta de que a obra de arte, mesmo a literária, é perecível.

No caso dos textos, raramente temos acesso ao seu manuscrito autógrafo ou ao apógrafo que gerou uma determinada edição. Quem pode ter em mãos os manuscritos dos romances de Kafka ou das epopéias atribuídas a Homero? Nós nem fazemos ideia de onde eles estão e se eles existem. Apenas poderemos ter contato com esses textos se buscarmos suas fontes, se elas estiverem acessíveis para nós e se tivermos tempo, dinheiro e conhecimento para isso. Por isso, por desconhecimento, falta de preocupação ou por várias impossibilidades, a maior parte das pessoas toma as edições de divulgação como verdadeiras, no sentido de estarem apresentando o texto em sua integridade, sem deturpações. No entanto, em grande parte das vezes, inclusive nas publicações mais recentes, cujo conteúdo constantemente nos chega por meio de edições mal preparadas, não nos defrontamos com um texto bem estabelecido que indique suas origens e ruídos.

Outro ponto importante do texto de Ceila Ferreira Martins é o que discorre sobre o conceito de autor. O que considero mais relevante nesse tópico é que a autora chama a atenção para o fato de que a própria concepção do que seja um autor é sócio-histórica. Ademais, ela nos lembra, ao citar Chartier, que um autor, quando cria e divulga sua obra, está sempre sujeito às condições de seu tempo, tanto na elaboração do texto quanto na sua divulgação.

Com efeito, pode-se dizer que a ideia que fazemos hoje de um autor, concepção que valoriza a originalidade de seus traços, não foi sempre e não é a mesma. Para os povos da Antiguidade – pelo menos no tempo em que provavelmente a Ilíada e a Odisséia foram criadas – ou mesmo hoje em dia, nas sociedades ágrafas, por exemplo, não interessa fixar um texto da maneira como ele foi engendrado. Ao que parece, o texto é entendido como produto de uma coletividade e está sendo reescrito sempre que é transmitido, de modo que ele só ganha sentido nessa atualização que envolve o discurso oral. Por conseguinte, podemos entender que a originalidade, no caso dessas sociedades, tem a ver com a inovação e não com a preservação.

No âmbito da música essa concepção é mais facilmente entendida. Se compararmos a Música Erudita ao Jazz, vamos perceber modos díspares de conceber a execução de uma peça musical. Os intérpretes de Música Erudita geralmente procuram ler as partituras para tocar as peças da maneira mais fiel possível a sua origem. Embora nós saibamos que isso é impossível, visto que há sempre uma leitura dos intérpretes por trás de uma execução, o ideal de originalidade como preservação se mantém. Assim como os músicos eruditos, quando lemos um texto, desejamos que nossa leitura se debruce sobre o original, ou seja, sobre a última intenção materializada do autor.

O jazz, música que tem suas raízes na África, recusa essa postura. Embora haja músicos de jazz que saibam ler e tocar por meio da leitura de partituras, a maioria deles não a utiliza; trata-se de um gênero musical calcado nos solos de instrumentos e na improvisação. É por esse motivo que escutar Stella By Starlight na interpretação de Miles Davis é bastante diferente de escutá-la na versão de Chet Baker. Vou mais além: versões de uma mesma música de jazz, tocadas por um mesmo grupo, podem variar bastante de um dia para o outro. Assim sendo, talvez se possa dizer que a ideia de originalidade como preservação é importante para Música Erudita, mas não para o jazz, que concebe a concebe como uma constante inovação.

Ainda sobre o autor, é importante termos em vista a relação entre as condições de seu tempo, a feitura e divulgação da obra. Não é difícil visualizar essa relação se nos voltamos para o passado. Em uma época em que a Igreja detém o poder político e econômico, o texto será elaborado e divulgado de um modo; em outro tempo, quando a burguesia começa a ganhar poder, os meios de divulgação e de organização da palavra escrita serão outros. Dessa comparação, por exemplo, podemos pensar, de um lado, em uma cultura reservada aos mosteiros e aos copistas e, do outro, em um momento bem posterior, em uma cultura divulgada pela imprensa.

Após a discussão desses temas, o texto da autora chega então, a meu ver, ao ponto principal, que é o de traçar os contornos da Crítica Textual moderna com o objetivo de demonstrar que essa ciência é mais do que uma atividade de estabelecimento de textos. Segundo a minha leitura do texto da professora, o filólogo é também responsável pela análise da recepção de um texto escrito. Essa análise, diga-se de passagem, é histórica. Portanto, não escapam aos olhos desse cientista o espólio de um autor, incluindo as edições vulgatas, ainda que problemáticas, pois estudar uma obra diacronicamente inclui analisar os diversos modos pelos quais ela veio a público.

Esse tipo de estudo crítico – no sentido amplo da palavra – desnaturaliza aquela errônea impressão a que me referi mais acima, uma ingenuidade que costuma nos assaltar quando temos um livro no colo, ou seja, a impressão de que uma edição carrega um texto a-histórico, não problemático e original. É no sentido de expor essa contribuição fundamental da Filologia que a professora Ceila Ferreira Martins lança mão da exemplificação, mencionando as diversas partes da edição críticogenética que está preparando.

Em minha opinião, o texto da professora deixa claro que, apenas o cientista com acesso aos manuscritos autógrafos, pode dizer quais foram as alterações empreendidas pelo próprio autor, no caso, obviamente, de ele ter revisto e reescrito uma obra. Tais informações, contidas na edição críticogenética, são extremamente válidas para qualquer crítico literário, pois elas podem revelar muito sobre o modo de escritura dos autores.

Há também outra contribuição da filologia, a meu ver, bastante importante: a da redução dos ruídos de sentido. Quando estamos diante de um texto que foi elaborado em um tempo distante do nosso, não raro encontramos algumas passagens mencionadas ou determinadas palavras, que nos são de difícil compreensão. Aparentemente, isso ocorre porque os sentidos difundidos na e pela linguagem são históricos. Esses trechos e vocábulos, no momento em que foram escritos, estavam vivos na memória cultural do leitor. No entanto, podem não mais se encontrar em circulação em nossa sociedade, ou, pelo menos, não de maneira similar. Por isso, são desconhecidos do leitor de hoje. Esclarecer esses tópicos históricos e o sentido dessas palavras é, a meu ver, muito relevante no que se refere à recepção do texto.

A esse respeito, pode-se notar que alguns críticos literários são contra esse esclarecimento de sentidos empreendido pelo filólogo em uma edição crítica. Geralmente, usa-se o argumento de que haveria uma espécie de aprisionamento dos sentidos das palavras, o que engessaria o trabalho de produção de sentidos, ou seja, a leitura. Em minha opinião, esse argumento é extremamente pobre.

Como se sabe, ou como se deveria saber, o esclarecimento do sentido de uma palavra não deixa de ser, assim como o estabelecimento de um texto, apenas uma conjectura - conjectura embasada cientificamente, no caso de uma edição crítica, mas que não deixa de ser conjectural. Dessa forma, o leitor não é obrigado a adotar o sentido estabelecido pelo crítico textual. Ademais, a adoção do sentido determinado na edição crítica não impede que se busquem outros sentidos possíveis, assim como o verbete do dicionário não torna impossível que a significação de uma palavra se transforme no decorrer do tempo ou ganhe outros contornos em determinado contexto. O que se tem na edição crítica é mais uma possibilidade de leitura, possibilidade, volto a repetir, embasada cientificamente.

Portanto, por tudo que foi lido no curso, especificamente no texto da professora Ceila, fica muito claro que o trabalho do crítico textual vai além do estabelecimento de textos, como também fica evidente o tamanho do cabedal que a leitura de uma edição críticogenética pode oferecer ao estudo do nosso patrimônio linguístico e literário.

Gustavo Listo

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Re: Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas

Mensagem  Juliana Benevides em Sex Jun 11, 2010 9:30 am

O texto do II congresso virtual de departamento de Literaturas Românicas escrito por Ceila Ferreira Martins é extremamente rico em informações sendo contudo conciso. Aborda-se desde a definição de crítica textual associada a filologia de diversos pontos de vista até detalhes da edição de O Egito.
O início do texto mostra quais são as preocupações de um crítico, posteriormente é abordado a constante dúvida que um crítico possui pois não se sabe se um texto foi realmente publicado pelo próprio autor.

Estabelece-se então a íntima relação de filologia com crítica textual ligando-se ao caráter interdisciplinar, visto que há um estudo global do texto incluindo investigações literárias, filosóficas, entre outras.

É definido apuramento do texto relacionando-o com a transmissão textual, feita, por exemplo, pelo computador e a transmissão autoral, que em algumas vezes não é publicado durante a vida do autor, causando um desrespeito ao caráter inacabado do texto.

O autor possui papel fundamental para a crítica textual, visto que ele é o criador do texto. Quando não se tem o último texto escrito pelo autor procura-se formular um texto que mais se aproxime da intenção final através de cópias não autógrafas.

A crítica textual juntamente à filologia se relaciona com a gênese do texto, a preservação, a transmissão e a divulgação dele. Na parte final do texto são apresentadas as fontes para o estudo da construção da edição de O Egipto. Por exemplo, haverá notas para explicar algumas alterações feitas, como a retirada de uma vírgula entre o sujeito e o predicado.

O texto de forma geral aborda diversas definições consideradas problemáticas que só serão aclaradas posteriormente a muitos congressos em que se debatam esse assunto.

Juliana Benevides

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Um comentário, em recorte, sobre o texto de Ceila Martins

Mensagem  Valéria em Qua Jun 16, 2010 1:54 pm

Do texto de Ceila Ferreira Martins, “Para uma definição de Crítica Textual: O caso da Edição Críticogenética de O Egipto e Outros relatos de Eça de Queirós”, destaco aqui um ponto da Crítica Textual (entendida como Filologia) que sublinha a dinâmica desta prática. Martins escreve: “Vale lembrarmos que a realização de uma edição crítica ou de uma edição críticogenética é uma feliz oportunidade para pensarmos (e repensarmos) os contornos, os limites e as práticas da Crítica Textual” (p.5 – grifo meu). Para este recorte que pretendo fazer, ainda busco a citação que Ceila Martins considerou “bastante feliz” no que diz respeito à definição de Filologia cunhada pelo Coordenador da Equipa Pessoa, Professor Ivo Castro:

[...] a filologia, definida como ciência que estuda a gênese e a escrita dos textos, a sua difusão e a transformação dos textos no decurso da sua transmissão, as características materiais e o modo de conservação dos suportes textuais, o modo de editar os textos com respeito máximo pela intenção manifestada do autor, pode continuar o seu percurso, evoluindo e aperfeiçoando-se por meio de um constante debate interno quanto aos seus princípios teóricos e aos seus métodos [...] (Enquanto os escritores escreverem...; pp. 46-47 – grifo meu)

Permanecendo com Ivo Castro, que pensa a Crítica Textual Moderna como sendo “o estudo do original do autor e do seu dossier de ante-textos, o que a insere no campo cronológico das literaturas modernas, já que são os escritores dos séculos XIX e XX (e muito raros os de épocas anteriores) que nos legam tais tipos de documentos”, vislumbro no Projeto de Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenado pelo Professor Doutor Carlos Reis, tanto este repensar “os contornos, os limites e as práticas da Crítica Textual” quanto àquela continuação de “percurso, evoluindo e aperfeiçoando-se por meio de um constante debate interno quanto aos seus princípios teóricos e aos seus métodos”. O percurso genético da obra de um autor, o estabelecimento de um texto-base fiel à vontade materializada do autor, a sua transmissão fidedigna ou não, a história das edições e das variantes autorais e não-autorais que fazem parte do complexo de textos recebidos, lidos e debatidos tanto por leigos quanto por autores ou críticos literários, são potentes estimuladores destes contornos flexíveis que parecem acompanhar cada vez mais os filólogos do nosso tempo. E estes limites, sendo expandidos por diversas formas, acabam por remodelar, com mais sobras, as percepções que os leitores, leigos ou não, tinham dos autores estudados, e de suas recepções no decorrer da história.
Ceila Martins, ao desdobrar o trabalho que a Equipa Eça de Queirós vem realizando - edição dos textos de O Egipto e outros relatos com base no cotejo do manuscrito autógrafo (Espólio Eça de Queirós) com a edição vulgata de 1926 e com as edições publicadas em jornais e em almanaque, notas do editor crítico, introdução etc –, destaca o aparato genético (mobilizando esses “contornos e limites das práticas da Crítica Textual”), que vem somar com outras camadas, e com possíveis alterações, o modo de ver e de pensar a obra de Eça de Queirós. E, nesta perspectiva, Martins enfatiza que o aparato genético tornará mais evidente algumas questões relativas ao Realismo pensado por Eça de Queirós: o autor, em seu percurso de gestação autoral, substitui alguns termos tendo em vista uma precisão buscada. Ainda em relação ao processo de criação autoral, Ceila Martins deixa então mais evidente que a tarefa da Crítica Textual Moderna de Textos Modernos (sec. XIX e XX) não se resume apenas a estabelecer, de forma mais digna possível, um texto autoral.
E o aparato genético, assim como o aparato crítico, também pode contribuir para refazer o percurso do olhar para certos autores – na perspectiva dos críticos literários e, por influência e pressão, na do público leitor, leigo ou não - e mesmo despertar outros sentidos e interesses pelos autores estudados pela Crítica Textual Moderna. E o que está em jogo aqui também é o modo como pensamos e valoramos a voz autoral, inserida que está em um contexto sócio-histórico cultural. Se as interferências não-autorais – neste caso da obra queirosiana: feitas pelos filhos dele – forem passadas adiante como sendo do autor Eça de Queirós, ou pior, não sendo sublinhadas nem estudadas como não-autorais, não estaremos estudando a obra dele, sua voz singular, mesmo que esta seja fruto de um contexto histórico. Mas, com o aparato genético e crítico, uma outra dimensão se abre neste campo. As edições aprovadas pelos autores se encontram mais disponíveis, há maior possibilidade de se encontrar textos em que os autores trabalharam e/ou aprovaram. Esta disponibilidade traça uma diferença entre a Crítica Textual Moderna e a Crítica Textual Antiga, tal como é citada no texto de Ceila Martins (p. 4), a partir de Ivo Castro: [a Crítica Textual Antiga] “continua a ocupar-se, como faz há bastante tempo, de textos removidos de sua forma autoral por numerosas operações de cópia, cujas sucessivas actualizações procura identificar e neutralizar”.
A Crítica textual Moderna ao basear-se - a partir de Castro e de Martins - no aparato crítico e genético, na história das transmissões dos textos, num cotejo minucioso, em novos princípios teóricos e métodos etc, acena para um alargamento de fronteiras e para uma renovação em leque, num diálogo constante em que a linguagem, a literatura, a história, enfim, as ciências e os leitores em geral, possam ganhar novas camadas de saberes e possam também desfrutar, em bases mais fundamentadas e próximas, das novas perspectivas que este sério estudo pode nos oferecer.

Valéria Medeiros 16/06/2010

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Re: Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas

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